Mãe que atribui morte do filho ao vício em bets diz que influenciadores 'seduzem e fazem parecer que ganhar dinheiro é fácil'

  • 15/07/2026
(Foto: Reprodução)
Mãe busca responsabilizar bets e influenciadores após morte do filho em MG A professora Vânia de Souza Borges, mãe de Rafel Borges do Amaral, afirmou que influenciadores digitais ajudam a atrair novos apostadores ao transmitir uma falsa expectativa de lucro fácil. Ela atribui a morte do filho, ocorrida em 2024, em Uberlândia, à dependência em apostas online e às perdas financeiras acumuladas. Desde a perda de Rafael, Vânia busca a responsabilização de criadores de conteúdo que divulgam plataforma de apostas para que, na avaliação dela, também respondam pelos impactos desse tipo de publicidade sobre pessoas vulneráveis. "Resolvi cobrar a responsabilidade dos influenciadores porque são eles que seduzem as pessoas a entrar nesse mundo. Eles simulam ganhos, fazem parecer que ganhar dinheiro é fácil, e muita gente acredita. [...] Eles lucram muito com isso e entendo que também precisam responder pelas consequências", defendeu. ✅ Clique aqui e siga o perfil do g1 Triângulo no WhatsApp 🔎 As apostas de quota fixa, conhecidas como bets, são permitidas no Brasil desde que as empresas tenham autorização do governo federal e sigam as regras do setor. Em julho, novas regras passaram a exigir alertas sobre os riscos das apostas e restringiram propagandas que associem o jogo a sucesso financeiro. Para ela, a exposição constante a vídeos de influenciadores mostrando supostos ganhos contribui para atrair pessoas que acabam desenvolvendo dependência e acumulando prejuízos financeiros. A professora contou ao g1 que chegou a essa conclusão depois de reconstruir os últimos meses de vida do filho. De acordo com ela, após a morte de Rafael, teve acesso ao celular, às redes sociais e à caixa de e-mails dele. Ela afirma ter encontrado uma sequência de mensagens promocionais enviadas por plataformas de apostas, oferecendo bônus, giros gratuitos e incentivos para voltar a jogar. Segundo Vânia, o material era acompanhado por campanhas estreladas por influenciadores digitais. Luto transformado em mobilização Desde 2024, Vânia reúne documentos, procura órgãos públicos e cobra investigações sobre a atuação das empresas de apostas. O caso ganhou repercussão nacional após uma carta escrita por ela ser incorporada aos documentos da CPI das Bets, no Senado. Mais recentemente, a deputada federal Dandara (PT-MG) apresentou uma representação ao Ministério da Justiça e Segurança Pública pedindo que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) investigue possíveis práticas de publicidade enganosa, estratégias digitais consideradas predatórias e a atuação de influenciadores, afiliados e agências de publicidade ligadas ao setor. Segundo o ministério, o pedido está em análise pelas áreas técnicas. Na avaliação da professora, a combinação entre publicidade personalizada, facilidade de acesso às plataformas e divulgação feita por personalidades da internet cria um ambiente propício para que pessoas vulneráveis permaneçam apostando mesmo diante de sucessivas perdas. "O meu desejo é que esse problema das apostas seja enfrentado de verdade para que outras mães não precisem passar pelo que eu estou passando. Eu fui mutilada pela perda do meu filho e jamais serei a mesma. O Rafael faz falta todos os dias, e eu não gostaria de ver essa mesma dor se repetir em outras famílias", comentou. Jovem ficou isolado e agressivo, relata mãe De acordo com a mãe, Rafael era um menino doce, generoso e irradiava alegria por onde passava. Mas depois das apostas recorrentes e perdas financeiras, começou a ficar isolado, agressivo e já não saía mais com os amigos. A mudança, segundo ela, aconteceu de forma silenciosa. No início, Rafael dizia que estava ganhando dinheiro. A família aconselhava que ele parasse, mas as apostas deixaram de ser uma diversão para se tornarem uma rotina. Ainda segundo a professora, o filho trabalhava muito, mas já não conseguia construir patrimônio nem realizar os próprios sonhos. "Ele tinha uma moto linda e perdeu. Já não comprava mais nada para si. Trabalhava muito, mas eu ficava indignada porque todo o dinheiro ia para o vício. Ele não conseguia guardar nada." Noites em claro dedicadas às apostas Vânia contou que, com o agravamento da dependência, passou a encontrar o filho acordado de madrugada jogando no celular. Ela pedia que ele desligasse a tela, tentava convencê-lo a parar, mas as conversas quase sempre terminavam em discussões. "Quando percebi que a situação estava se agravando, comecei a conversar com ele. Só que ele não aceitava que tinha um problema. Passava noites inteiras jogando e eu acordava de madrugada, implorava que ele parasse. Quando perdia dinheiro, ficava extremamente nervoso", relatou. Em uma dessas brigas, Rafael deixou a casa da mãe e foi morar com a avó. Ainda de acordo com a mãe, o jovem chegou a perder o emprego porque passava as noites apostando e começou a faltar ao serviço. Vânia de Souza e o filho Rafael Arquivo pessoal Sonhos foram interrompidos Ainda de acordo com a família, ele vendeu uma motocicleta seminova avaliada em R$ 8 mil, perdeu suas economias e passou a esconder da família a gravidade da dependência. Pouco antes de morrer, segundo a mãe, Rafael havia enviado um áudio a um amigo dizendo que já não conseguia controlar o vício em apostas online, além de relatar as recorrentes perdas financeiras. "Depois descobri que, naquela madrugada, ele fez transferências para plataformas de apostas. Foi quando concluí que provavelmente perdeu tudo o que tinha conseguido economizar." Ela afirmou ter obtido junto a um banco digital a informação de que, às 1h48 do dia da morte, Rafael realizou uma transferência de R$ 30 para uma conta vinculada à empresa responsável pelo chamado "Jogo do Tigrinho". A partir dessas informações, Vânia acredita que o filhoperdeu nas apostas o recurso que dizia estar guardando para abrir um lava a jato. Segundo ela, as instituições financeiras nas quais Rafael mantinha contas negaram o acesso aos extratos bancários completos sob alegação de sigilo. Por isso, afirma que ainda não conseguiu calcular quanto o filho perdeu em plataformas de apostas e outros jogos online. Tentativas de responsabilização frustradas Após a morte do filho, Vânia procurou inicialmente a Promotoria Criminal de Uberlândia. O promotor responsável na época entendeu que a questão não possuía natureza criminal e encaminhou a demanda às promotorias de Defesa do Consumidor e da Saúde. Posteriormente, em maio de 2025, o Ministério Público de Minas Gerais determinou o arquivamento da investigação. Na carta enviada ao MP, Vânia alegou que também procurou a Polícia Civil de Minas Gerais para solicitar a abertura de inquérito, mas recebeu a informação de que "nada podia ser feito". A mesma carta enviada ao MPMG constou entre os documentos da CPI das Bets, no Congresso Nacional, no ano passado. O parecer da senadora Soraya Thronicke, que sugeria o indiciamento de influenciadores e empresários ligados a bets, foi rejeitado por 4 votos a 3. LEIA MAIS: Mulher que ficou dependente de remédio após venda sem receita procurou farmácia depois de engordar 50 kg na gravidez Homem que ligou 60 vezes para a ex em um dia é condenado por stalking Mãe manda filho trabalhar e acaba agredida com voadora e pedradas Após acessar o celular e a caixa de e-mails de Rafael, Vânia encontrou dezenas de mensagens promocionais de plataformas de apostas que continuaram chegando mesmo depois da morte do jovem Reprodução/Redes Sociais Caso chega ao Ministério da Justiça Com a nova repercussão do caso, e considerando a documentação apresentada ao Ministério Público e utilizada na CPI das Bets, a deputada Dandara (PT-MG) protocolou representação no Ministério da Justiça e Segurança Pública solicitando que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor investiguem possíveis práticas de publicidade enganosa, estratégias digitais predatórias e falhas na proteção ao consumidor envolvendo plataformas de apostas. O documento também pede uma linha específica de investigação sobre a atuação de influenciadores digitais, afiliados e agências de publicidade. Ao g1, o Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que o processo foi recebido e está em análise pelas áreas técnicas competentes, respeitando os trâmites e procedimentos administrativos previstos. Questionamentos às autoridades A reportagem solicitou posicionamento ao MPMG sobre os fundamentos do arquivamento da denúncia, quais diligências foram realizadas e se existe possibilidade de reavaliação diante dos documentos apresentados pela família e dos fatos posteriormente levados ao Congresso Nacional. Também foram encaminhados pedidos de esclarecimento à Polícia Civil de Minas Gerais sobre eventual instauração de inquérito. Mas não houve respostas até a última atualização desta reportagem. Desde a morte do filho, Vânia de Souza Borges transformou o luto em uma busca por respostas e responsabilização sobre os impactos das apostas online Reprodução/Redes Sociais VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste de Minas e

FONTE: https://g1.globo.com/mg/triangulo-mineiro/noticia/2026/07/15/mae-que-atribui-morte-do-filho-ao-vicio-em-bets-diz-que-influenciadores-seduzem-e-fazem-parecer-que-ganhar-dinheiro-e-facil.ghtml


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