Documentário resgata história de Ambrósio, líder quilombola apagado da memória de Minas Gerais
09/05/2026
(Foto: Reprodução) Documentário resgata história de Ambrósio, líder quilombola apagado da memória de MG
Um líder quilombola que mobilizou milhares de pessoas no século XVIII, enfrentou a Coroa portuguesa e teve sua trajetória praticamente apagada da história oficial de Minas Gerais. Essa é a figura de Ambrósio, personagem central do documentário “Ambrósio, rei do Campo Grande: o rei esquecido de uma história roubada que ainda ecoa”, lançado oficialmente no dia 26 de abril.
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Produzido pela Braia Produções e dirigido pelo músico mineiro Bruno Maia, o filme é resultado de mais de uma década de pesquisa histórica e nasce de um interesse antigo do diretor.
"Eu tenho este desejo de produzir um documentário sobre o Ambrósio faz 15 anos já. Eu descobri o Ambrósio em 2011 enquanto produzia outro documentário - sobre o Sete Orelhas - e fui apresentado à obra do Tarcísio José Martins, que é a pessoa que trouxe o Ambrósio de volta à mesa, às discussões, inspirou diversos trabalhos acadêmicos e tudo", conta.
Professor Antônio Carias, geógrafo de Cristais e protetor do Quilombo, é um dos personagens do documentário sobre Ambrósio — rei quilombola de Minas Gerais.
Divulgação
O projeto começou quando ele teve contato com a obra de Tarcísio José Martins, que, segundo ele, o deixou “perplexo e encantado ao mesmo tempo, encantado com a força e a potência de Ambrósio e perplexo com o silenciamento que sua figura sofreu.”
O documentário apresenta Ambrósio como uma liderança fundamental no período entre a Guerra dos Emboabas e a Inconfidência Mineira, um intervalo pouco explorado no ensino tradicional. Segundo o diretor, esse vazio histórico contribuiu para o apagamento de personagens ligados à resistência negra.
Durante a pesquisa, além do aprofundamento histórico, um dado contemporâneo chamou a atenção do diretor: a situação das comunidades quilombolas em Minas Gerais.
"A pesquisa eu já faço há mais de uma década, a pesquisa histórica. Porém, alguns desdobramentos gerados a partir do fator histórico deste tema, alguns paralelos contemporâneos, me surpreenderam, como por exemplo o fato de que MG, que é o 4º estado com maior população quilombola do país, [...] ter 99% da população quilombola vivendo em terras não tituladas. É um dos ecos do apagamento do Ambrósio esta invisibilidade jurídica e social que assombra os quilombolas."
Documentário resgata história de Ambrósio, líder quilombola apagado da memória de Minas Gerais
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Das pesquisas à tela
As gravações ocorreram em cidades ligadas aos quilombos do Campo Grande e à trajetória de Ambrósio, como Cristais, Ibiá, Lavras, São João del Rei, Prados e Formiga. O trabalho envolveu análise de mapas da época, documentos históricos e obras clássicas sobre o tema.
Mesmo com anos de investigação, o diretor destaca que transformar esse conteúdo em linguagem audiovisual foi um dos principais desafios.
“É uma história cheia de lacunas por causa do apagamento. Para fazer sentido, às vezes foi preciso retomar fatos e datas várias vezes, tentando ser didático sem ser redundante”, explica.
O filme também aposta em uma forte presença musical, com trilha dividida com o violeiro e historiador Ivan Vilela, além de composições autorais inspiradas na figura de Ambrósio.
Leonardo Dias, Vinícius Venturi e Bruno Maia registram momento em Prados (MG) durante a produção do documentário.
Reprodução
Conexões com o presente
Mais do que reconstituir o passado, o documentário propõe um diálogo direto com questões atuais. Durante a pesquisa, um dado chamou a atenção do diretor: a situação das comunidades quilombolas em Minas Gerais hoje.
“O estado tem a quarta maior população quilombola do país, mas 99% dessas comunidades vivem em terras não tituladas. Isso é um dos ecos desse apagamento histórico”, afirma.
Para ele, a história de Ambrósio não é apenas um capítulo esquecido, mas um reflexo de desigualdades ainda presentes na sociedade brasileira.
“As reverberações dessa história são visíveis nos índices sociais, no racismo estrutural e até em casos de trabalho análogo à escravidão. Isso mostra como o passado ainda está muito presente.”
Imagem aérea mostra o Memorial do Quilombo de Cristais, um dos cenários do documentário sobre Ambrósio
Drone/Reprodução
Cinema como ferramenta de reparação
O diretor acredita que o cinema pode ajudar a ampliar o acesso a histórias que ficaram fora dos livros e contribuir para a valorização da cultura afro-brasileira.
“A Arte através de seus meios, a Música, o Cinema, a Literatura, o Teatro entre outros, pode ser um instrumento de reparação histórica, de denúncia e até da simples divulgação e difusão de um fato histórico. Adoraria que este tema e a figura do Ambrósio fossem estudados nas escolas pros nossos jovens poderem conhecer este personagem tão grandioso de Minas Gerais e voltar ser motivo de orgulho para milhares de pessoas, muitas delas descendentes dos quilombolas do Campo Grande", diz.
O filme está disponível no site oficial do projeto e no YouTube, com versões acessíveis, incluindo tradução em Libras, legendas e versão em inglês. A página reúne ainda conteúdos complementares sobre os quilombos do Campo Grande e discussões sobre questões fundiárias e raciais.
Juliete Gonçalves e o diretor do documentário, Bruno Maia, em frente à estátua de Ambrósio
Leornardo Dias
Segundo o diretor, o principal objetivo do documentário é apresentar Ambrósio às novas gerações e provocar uma reflexão sobre quem conta a história e quais versões são perpetuadas.
"A primeira intenção do filme é apresentar para as novas gerações esta figura e história que esteve soterrada por séculos da história regular de Minas Gerais, fomentando o orgulho do nosso povo por este personagem tão importante em nossa história. Daí entram outras reflexões como a luta no campo, as questões raciais, a violência simbólica, a questão de quem conta a história e com que propósitos, da História ser uma leitura do passado feita por alguém do presente nunca de forma neutra. "
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