De ônibus a R$ 1,25, celular por menos de R$ 400 e gasolina a R$ 1,60 o litro: como era Uberlândia na Copa de 2002

  • 20/06/2026
(Foto: Reprodução)
Expectativa da torcida de Uberlândia pelo Brasil na Copa de 2002 Enquanto a Seleção Brasileira caminhava rumo ao pentacampeonato na Copa do Mundo de 2002, Uberlândia vivia uma realidade muito diferente da atual. A internet ainda engatinhava, os celulares eram artigos para poucos e as passagens de ônibus eram pagas com passes feitos de plástico. O g1 fez uma pesquisa entre os meses de maio e julho de 2002 no Cedoc da TV Integração e no extinto jornal Correio de Uberlândia, disponível no Arquivo Público Municipal. O objetivo é reconstruir o cotidiano dos moradores na última vez em que o Brasil levantou a taça do mundial. Entre hábitos, preços, tecnologia, transporte, esporte e desafios urbanos, a cidade revela um retrato que hoje parece distante. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsApp O Correio de Uberlândia foi um dos principais jornais da cidade e marcou a história da imprensa regional até encerrar as atividades em 2016, aos 76 anos. Da desconfiança à festa do pentacampeonato Entre celulares simples, internet discada, ônibus pagos com fichas e ruas tomadas por buzinaços, Uberlândia acompanhou a conquista do pentacampeonato em um mundo muito diferente do atual. Nem todo mundo acreditava que a Seleção Brasileira conquistaria o título. Dezessete dias antes do início da Copa, comerciantes reclamavam das vendas tímidas de produtos temáticos. Camisetas com o slogan 'Rumo ao Penta' custavam entre R$ 5 e R$ 8, mas a procura era considerada baixa. Um serigrafista ouvido pelo jornal atribuiu a situação à desconfiança dos torcedores em relação à equipe comandada por Luiz Felipe Scolari. A percepção mudou conforme o Brasil avançava no torneio. Com as primeiras vitórias, os torcedores passaram a acreditar no título. Muitos já apostavam em uma final contra a Alemanha. A cada triunfo, as ruas eram tomadas por buzinaços que chegavam a durar até 40 minutos. Bares ficavam lotados, escolas adaptavam a rotina para acompanhar os jogos e milhares de pessoas saíam para comemorar. No dia da final, a expectativa era de que os torcedores ocupassem as ruas da cidade. Mais de 600 policiais militares e agentes de trânsito foram mobilizados para acompanhar as comemorações. Imagens da comemoração do penta em Uberlândia em 2002 Jornal Correio de Uberlândia/Reprodução Bares abriam às 5h30 da manhã Uberlandenses assistem à vitória do Brasil sobre a Costa Rica na Copa de 2002 Por causa do fuso horário entre Brasil, Coreia do Sul e Japão, os jogos aconteciam nas primeiras horas do dia. Na estreia da Seleção, estabelecimentos abriram antes das 6h para receber os torcedores. Uma das referências da época era a Choperia Zero Grau, que reunia cerca de 500 pessoas diante de cinco televisores de 29 polegadas. O comércio e os bancos só começavam a funcionar ao meio-dia nos dias de jogos do Brasil. Muitas crianças também acompanhavam as partidas dentro das escolas. Ônibus a R$ 1,25 e mototáxi em expansão Troca de passes de plástico por selos e bilhetagem eletrônica Muito antes dos aplicativos de transporte, os moradores dependiam principalmente dos ônibus, táxis e mototáxis. A bandeirada do táxi custava R$ 2,69 e uma corrida média saía entre R$ 8 e R$ 10. Já os mototáxis, que ainda eram vistos com desconfiança e enfrentavam discussões sobre regulamentação, cobravam entre R$ 3 e R$ 5 por viagem. As empresas responsáveis pelo transporte coletivo eram a Transcol e a Viação Triângulo. Em maio daquele ano, a tarifa passou para R$ 1,25. Cerca de 200 mil passageiros utilizavam diariamente o sistema. Na época, a cidade se preparava para trocar os passes plásticos por bilhetes impressos. A implantação dos cartões magnéticos acumulava quase um ano de atraso. Os passes de plástico foram substituídos pelos selos e posteriormente pelo cartão TV Integração/Reprodução Quanto custava viver em Uberlândia em 2002? Venda de telefone celular em Uberlândia no início dos anos 2000 Os anúncios publicados pelo jornal ajudam a entender o custo de vida da época: Coca-Cola de 2 litros: R$ 1,39 Leite tipo C: R$ 0,90 Gás de cozinha: R$ 25 Linguiça a granel: R$ 1,99 o quilo Gasolina: R$ 1,60 o litro Apartamento novo no Jardim Finotti com dois quartos, sala, cozinha, área de serviço, sacada e vaga na garagem: R$ 40 mil Celular Nokia 5125: R$ 379 O salário mínimo nacional era de R$ 200. Um motorista de ônibus recebia R$ 595,85. Já um cobrador ganhava R$ 357. Um professor das séries iniciais tinha remuneração de aproximadamente R$ 212. Alguns anúncios veiculados entre maio e julho de 2002 Jornal Correio de Uberlândia/Reprodução A Algar anunciava, em São Paulo, a fusão das empresas de telefonia fixa, celular, TV a cabo, Internet e data center. Surgia a criação da 'nova' CTBC. A empresa passou a fazer chamadas a longa distância. Um interurbano em um domingo, de fixo para fixo, saia por cinco centavos. Entre os jovens com celular, que não eram muitos, na modalidade pré-pago, ficou famoso o 'me dá um toquinho', ou seja, em três segundo você avisava ao amigo que precisava falar com ele mas não tinha crédito. Quando a internet ainda era novidade Em 2002, o Brasil tinha cerca de 13 milhões de usuários de internet. As novas regras para registro de domínios começavam a ser implantadas e o acesso à rede ainda estava longe de ser algo comum nos lares brasileiros. Quem queria ouvir música recorria ao walkman. Já para gravar programas de televisão ou os jogos da Copa, o videocassete era indispensável. Em Uberlândia, um dos destaques era o site Charges.com, criado pelo cartunista Maurício Ricardo. O portal acumulava milhões de acessos e já se destacava nacionalmente. Na época, o chargista comentou sobre os desafios de produzir conteúdo para a internet. "Eu não arrisco nenhuma previsão. Todas as tentativas de definir para onde esse movimento vai erraram." Maurício Ricardo criou o Charges.com que em 2002 e acumulava milhões de acesso e se destacava no Brasil Jornal Correio de Uberlândia/Reprodução Problemas que atravessaram as décadas Alguns desafios enfrentados pela cidade há 24 anos continuam atuais. Uberlândia registrava mais de 3 mil casos confirmados de dengue. A cidade produzia cerca de 350 toneladas de lixo por dia e perdia aproximadamente 31% da água tratada em vazamentos e ligações clandestinas. Moradores reclamavam da poluição visual na região central e da falta de agentes de fiscalização de trânsito. A acessibilidade também era motivo de preocupação. Estimava-se a necessidade de cerca de mil rampas para atender pessoas com deficiência. Greves de professores das redes municipal e estadual afetavam o calendário escolar. Na segurança pública, os assaltos a ônibus chamavam atenção. Apenas nos primeiros seis meses do ano foram registrados 163 casos. O basquete vivia sua era de ouro Basquete e solidariedade: jogador Cambraia participa de Ação Social Se o Uberlândia Esporte Clube enfrentava dificuldades e acabou rebaixado para o Módulo 2 do Campeonato Mineiro, o basquete vivia um dos períodos mais marcantes da história da cidade. A chamada 'Unit Mania' lotava o Uberlândia Tênis Clube (UTC), com mais de 3 mil torcedores por partida. Virava o 'caldeirão' da Inferno Verde, torcida organizada do futebol que migrou para o basquete. O time chegou à final do Campeonato Brasileiro e ganhou até álbum de figurinhas. A relevância da equipe era tanta que a Seleção Brasileira de Basquete utilizou o UTC para parte da preparação para o Mundial de Indianápolis, nos Estados Unidos. Time de basquete de Uberlândia virou mania na cidade Jornal Correio de Uberlândia/Reprodução Outros destaques A cidade ainda recebeu competições de judô, futsal e antes do MMA o lutador que se destacava na cena era o Cyborg no box tailandês. O capoeirista Wellington Ramos, ou Pelezinho, representava Uberlândia e o Brasil na Europa nos Jogos Europeus Abadá Capoeira. A cidade recebeu neste ano o 6o Open de Futsal Adulto, no clube AABB. Moda, beleza e costumes As manicures cobravam cerca de R$ 7 pelos tradicionais serviços de pé e mão. Para quem queria entrar no clima da Copa, era possível decorar as unhas com as cores da bandeira brasileira por cerca de R$ 16. Bandanas faziam sucesso entre os jovens, enquanto a drenagem linfática se consolidava como uma das técnicas estéticas mais procuradas. Sem redes sociais, as fotos das festas e eventos eram vistas em portais locais como o Fala X na internet ou em álbuns impressos levados de um lado para o outro. Uma cidade em transformação Em 2002, o prefeito de Uberlândia era Zaire Rezende. Os resultados dos vestibulares ainda eram publicados nos jornais impressos. O Teatro Rondon Pacheco seguia em funcionamento e a cidade realizava a primeira edição da 'Parada do Orgulho Gay'. Os condomínios horizontais começavam a ganhar espaço e quem planejava viagens internacionais utilizava traveller checks para levar dinheiro ao exterior. Foi neste ano também que o Ministério do Trabalho permitiu que menores de 16 anos tivessem direito a ter carteira de trabalho assinada em Uberlândia. Poucos imaginavam que aquela seria a última vez que o Brasil conquistaria uma Copa do Mundo em um longo período e que transformações tomariam conta da cidade nos anos seguintes. Carro popular Em 2002, carros populares custavam entre R$ 11 e R$ 25 mil: apenas 3 de cada 10 saiam das concessionárias como modelos básicos, os outros sete saíam com acessórios típicos de modelos de luxo como ar condicionado, direção hidráulica e vidros elétricos, segundo registros da época. Anúncio de carro popular em 2002 Jornal Correio de Uberlândia/Reprodução Agro Cafeicultores do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba esperavam enviar 35 mil sacas de café para o Japão na safra 2002/2003, 20% maior do que o enviado na safra anterior. O líder na lista de exportação era o café cereja descascado. Saúde Depois de 8 anos sob a gestão da Fundação Maçônica Manoel dos Santos as cinco UAIs da cidade passaram a ser administradas pela Prefeitura por meio da Secretaria Municipal de Saúde. UAIs Pampulha, Planalto e Tibery começavam a usar a telemedicina nos atendimentos. Shows Os bares tocavam sertanejo, pagode, covers de bandas como Pink Floyd e Pearl Jam. A tendência das raves começava a se consolidar entre os jovens. Em 2002 a cidade recebeu dois grandes shows no período pesquisado, ambos na Acrópole: Skank e Oswaldo Montenegro. O Brasil de 2002 Alguns fatos ajudam a lembrar como era o país naquele ano: O reality show Big Brother Brasil estreou na televisão; A novela "O Clone" liderava a audiência no horário nobre; O Congresso Nacional discutia medidas para encerrar o funcionamento dos bingos; O dólar chegou a R$ 2,55, a maior cotação do ano até então; A criação de avestruzes vivia um período de forte expansão no país. Preocupação dos pais Educadores e pais estavam preocupados com o impacto da exposição de crianças a produções como 'Power Rangers', 'Pokémon', 'Digimón' e 'Dragon Ball Z'. A preocupação era de que os filmes e animem despertassem agressividade nos pequenos. Videl, Goten e Gohan, em cena de Dragon Ball Z Reprodução VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste de Minas

FONTE: https://g1.globo.com/mg/triangulo-mineiro/noticia/2026/06/20/de-onibus-a-r-125-celular-por-menos-de-r-400-e-gasolina-a-r-160-o-litro-como-era-uberlandia-na-copa-de-2002.ghtml


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